Embalagem reciclada não é embalagem de segunda: o que mudou na decisão das indústrias

Embalagem reciclada não é embalagem de segunda: o que mudou na decisão das indústrias

Performance, rastreabilidade e conteúdo reciclado passaram a fazer parte da mesma decisão. Rodrigo Godoy, Coordenador Comercial e Marketing da Azeplast, explica como as novas exigências do mercado estão mudando a forma como as indústrias escolhem suas embalagens e fornecedores.

A decisão sobre uma embalagem mudou. Durante muito tempo, o preço ocupou o centro da negociação. Hoje, o comprador industrial precisa considerar também se o material funciona na linha de produção, atende às exigências do mercado e consegue comprovar sua origem.

“Hoje o cliente chega com três perguntas na mesa: a embalagem entrega performance, ela me ajuda a cumprir a legislação e ela conta uma história boa para o meu consumidor”, observa Rodrigo Godoy, Coordenador Comercial e Marketing da Azeplast.

Para ele, essa mudança aparece diretamente nas conversas com os clientes. A embalagem passou a ser avaliada também pela capacidade do fornecedor de garantir conteúdo reciclado, rastreabilidade e regularidade.

O cenário regulatório reforça essa transformação. O Decreto nº 12.688/2025 estabeleceu metas nacionais progressivas para o conteúdo reciclado incorporado às embalagens plásticas, começando em 22% em 2026 e avançando até 40% em 2040, conforme as regras aplicáveis a cada empresa e categoria de embalagem.

Diante disso, Rodrigo resume a mudança de comportamento do mercado: “É outra conversa. Quem não tem resposta sai da negociação.”

A qualidade está no processo

Ainda existe uma percepção de que utilizar material reciclado significa necessariamente abrir mão de desempenho. Para Rodrigo, essa visão foi construída, em parte, por processos de reciclagem sem controle adequado.

“Faz sentido se a gente estiver falando de reciclagem feita sem engenharia”, explica.

Quando o resíduo é processado sem controle das diferentes etapas, podem surgir problemas como odor, variação de espessura e pontos de ruptura. Processos industriais mais estruturados, por outro lado, permitem trabalhar o material com etapas de lavagem, separação, secagem, filtração, degasagem e formulação adequadas.

Por isso, na avaliação de Rodrigo, a antiga percepção já não corresponde ao que é possível fazer com processos mais avançados. “A percepção está defasada.”

O ponto central passa a ser entender qual material é adequado à aplicação, como foi processado e quem consegue garantir suas características. Como resume Rodrigo, “PCR não é um produto único, é uma família de materiais com comportamentos diferentes”.

Isso significa que a escolha da embalagem precisa considerar a aplicação, a máquina que fará o empacotamento, as condições de exposição e a vida útil esperada. Também pode envolver diferentes proporções de PCR, resina virgem e aditivos.

“Performance não é negociável, e sustentabilidade não pode ser desculpa para performance pior”, reforça.

O fornecedor precisa entregar previsibilidade

Essa exigência também muda os critérios usados para escolher um fornecedor. Na visão de Rodrigo, verticalização, rastreabilidade, consistência, capacidade técnica e histórico são elementos importantes para avaliar uma operação preparada para trabalhar com PCR.

A verticalização permite acompanhar diferentes etapas da cadeia, da matéria-prima à transformação. Já a rastreabilidade ajuda a comprovar a origem do material e o conteúdo reciclado incorporado à embalagem, aspecto que ganha ainda mais importância diante das novas exigências regulatórias.

Mas existe uma questão igualmente prática para quem depende de uma embalagem na produção: o material precisa estar disponível e apresentar o mesmo padrão continuamente.

“Cliente industrial vive de previsibilidade”, afirma Rodrigo.

Isso exige controle de processo, conhecimento sobre a matéria-prima, capacidade produtiva e uma estrutura que sustente o fornecimento no longo prazo. Por isso, experiência também pesa na escolha: reciclagem industrial não se resume a adquirir equipamentos, mas envolve conhecimento construído ao longo do tempo.

A circularidade começa no projeto

As mudanças também estão chegando ao desenvolvimento das próprias embalagens. No Brasil, as metas de conteúdo reciclado avançam progressivamente. Na União Europeia, o PPWR estabelece requisitos de reciclabilidade e metas de conteúdo reciclado para diferentes categorias de embalagens plásticas a partir de 2030.

Para quem participa de cadeias de fornecimento maiores ou atende mercados internacionais, acompanhar essas mudanças significa antecipar decisões de projeto. Entre os movimentos apontados por Rodrigo estão a busca por estruturas monomateriais, maior atenção aos componentes que interferem na reciclagem e o avanço da rastreabilidade digital.

“A circularidade está entrando no projeto da embalagem, antes de ela existir”, observa.

A preparação, portanto, não precisa começar quando uma exigência se torna urgente. Mapear o conteúdo reciclado atual, testar materiais, avaliar aplicações e trabalhar com fornecedores capazes de comprovar o que entregam são passos que podem ser antecipados.

Na avaliação de Rodrigo, adiar esse movimento pode significar chegar tarde a um mercado que já está mudando. “Quem começar em 2028 vai chegar atrasado numa fila que já está andando.”

A embalagem também comunica posicionamento

A mudança na relação com os materiais reciclados também chega ao marketing, conforme chama a atenção o coordenador. A embalagem vai além de um material que protege, transporta e conserva um produto.

Ela faz parte da forma como a marca se apresenta ao mercado e pode comunicar escolhas relacionadas à sustentabilidade, à responsabilidade sobre os materiais utilizados e à forma como a empresa se relaciona com sua cadeia de produção.

Para o consumidor, essas escolhas ajudam a construir uma percepção sobre a marca, principalmente quando existe coerência entre o que ela comunica e o que efetivamente entrega.

Nesse contexto, Rodrigo pontua que a escolha precisa fazer sentido para o produto, para a operação e para o posicionamento da empresa. Já que incorporar conteúdo reciclado vai além de uma decisão técnica ou regulatória.

Uma embalagem que utiliza PCR com qualidade, consegue comprovar sua origem e mantém o desempenho esperado permite que a marca fale sobre essa escolha com mais consistência. O marketing, portanto, passa a comunicar uma mudança que começa na cadeia produtiva, mas chega até a percepção de quem compra.

Embalagem reciclada não é embalagem de segunda

No fim, toda essa discussão precisa voltar a um critério básico: a embalagem precisa funcionar.

É justamente por isso que Rodrigo considera importante superar a associação entre reciclado e material inferior. “Embalagem reciclada não é embalagem de segunda”, afirma.

O conteúdo reciclado pode atender a demandas ambientais e regulatórias, mas precisa estar acompanhado de qualidade, consistência e domínio técnico. Para Rodrigo, essa é a diferença entre uma cadeia de reciclagem estruturada e uma simples aparência de sustentabilidade.

“A reciclagem séria é feita com engenharia, com controle, com respeito pelo material. Sem isso, não é reciclagem, é maquiagem”, conclui.

Essa visão resume uma mudança que já alcança a indústria: escolher uma embalagem com PCR não significa simplesmente trocar um material por outro. Significa avaliar o que será usado, como será produzido, de onde veio e se o fornecedor consegue entregar o mesmo padrão de forma contínua.

A embalagem reciclada, nesse cenário, deixa de ser uma alternativa de segunda e passa a ser uma escolha industrial que precisa responder aos mesmos critérios de qualquer outra: qualidade, regularidade e confiança.