35 anos de transformação: a visão de Djalma Azevedo sobre o futuro das embalagens e da economia circular

Da evolução da reciclagem no Brasil às novas exigências regulatórias, o diretor-presidente da Azeplast compartilha os aprendizados de mais de três décadas de atuação na indústria e explica por que a economia circular deixou de ser tendência para se tornar uma estratégia de negócios.

Ao longo dos últimos 35 anos, a indústria de embalagens passou por mudanças profundas. Tecnologias evoluíram, legislações foram criadas, consumidores passaram a exigir mais responsabilidade ambiental e a economia circular ganhou espaço nas estratégias das empresas.

Poucos profissionais acompanharam essa transformação tão de perto quanto Djalma Azevedo, diretor-presidente da Azeplast. Desde o início da década de 1990, ele viu o mercado deixar de tratar o plástico reciclado como um material de baixo valor para reconhecê-lo como um ativo estratégico para a competitividade das indústrias.

Nesta entrevista especial, Djalma compartilha sua visão sobre a evolução do setor, os desafios da reciclagem de filmes flexíveis, o impacto das novas regulamentações e os caminhos que devem definir o futuro das embalagens no Brasil e no mundo.

De subproduto a estratégia de mercado

Durante muito tempo, reciclar plástico era uma atividade vista apenas como alternativa para reduzir custos. Segundo Djalma, esse cenário começou a mudar à medida que a tecnologia evoluiu, permitindo transformar resíduos em matérias-primas capazes de atender aos mesmos padrões de desempenho exigidos pela indústria.

“Quando começamos, em 1991, plástico reciclado era tratado como subproduto de quem não podia pagar pelo virgem. Não existia PCR no vocabulário comercial. Existia ‘aparas’, ‘sucata’, ‘refugo’”, explicou.

Ao longo dessa trajetória, ele identifica três grandes marcos para o setor: a profissionalização dos processos de reciclagem, o avanço das legislações ambientais e a mudança na percepção do mercado.

A primeira transformação ocorreu com a evolução tecnológica da reciclagem. Processos como lavagem, separação, extrusão e controle de propriedades passaram a exigir engenharia, controle de qualidade e investimentos em equipamentos especializados.

“A extrusão de PCR deixou de ser ‘jogar o aparado de volta na máquina’ e virou ciência de processo”, reflete o diretor-presidente.

Mais recentemente, a regulamentação passou a acelerar esse movimento. A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabeleceu as bases para a economia circular, enquanto o Decreto nº 12.688/2025 trouxe metas obrigatórias para recuperação de embalagens e utilização de conteúdo reciclado.

Na avaliação de Djalma, outro fator passou a impulsionar definitivamente essa transformação: a demanda do próprio mercado. “Sustentabilidade deixou de ser marketing verde e passou a ser critério de homologação de fornecedor”, pontuou.

O momento em que sustentabilidade deixou de ser escolha

Embora o debate sobre sustentabilidade já estivesse presente há alguns anos, Djalma identifica um momento bastante específico em que percebeu que o tema deixaria de ser apenas um diferencial competitivo.

Segundo ele, isso aconteceu em 2019, quando grandes clientes passaram a solicitar comprovações formais sobre o percentual de PCR presente nas embalagens, sua origem e os mecanismos de rastreabilidade adotados pela indústria. “Não foi por epifania. Foi por dado concreto”, expõe o diretor.

A partir dali, a sustentabilidade deixou de estar restrita às áreas de marketing ou responsabilidade corporativa e passou a integrar diretamente os processos de compras das empresas.

Esse movimento ganhou ainda mais força com a pressão de investidores, metas globais de redução de emissões e, posteriormente, com a publicação do Decreto nº 12.688/2025.

Produzir com PCR exige muito mais do que usar plástico reciclado

Um dos pontos mais enfatizados por Djalma é que existe uma diferença significativa entre utilizar matéria-prima reciclada e dominar, de fato, a produção de embalagens com PCR. Segundo ele, tudo começa muito antes da extrusão.

“Produzir embalagem com PCR não é pegar resíduo moído e jogar na extrusora”, problematiza ele, que enfatiza ainda que, para alcançar desempenho industrial, é necessário controlar toda a cadeia: origem do resíduo, triagem, lavagem, extrusão, formulação das resinas, rastreabilidade e certificações.

Ainda em sua fala, destaca que a reciclagem de filmes flexíveis pós-consumo está entre os processos mais complexos da indústria, justamente pelo elevado nível de contaminação e pela diversidade de polímeros presentes nesse tipo de resíduo. Além da tecnologia, outro fator faz diferença.

“Cliente industrial não quer PCR quando disponível. Quer PCR todo mês, no mesmo lote, com a mesma qualidade,” problematiza ele que, cada vez mais foi compreendendo as dores do setor.

Uma nova realidade para a indústria brasileira

Na visão do diretor-presidente da Azeplast, a legislação brasileira representa apenas o início de uma transformação muito maior.

Enquanto o Brasil avança com o Decreto nº 12.688/2025, mercados como o europeu já implementam normas ainda mais rigorosas, como a PPWR (Packaging and Packaging Waste Regulation), que estabelece requisitos relacionados à reciclabilidade, conteúdo reciclado e rastreabilidade das embalagens.

Para Djalma, isso demonstra que a economia circular caminha para se tornar um padrão internacional. “O mundo está convergindo para um padrão global de circularidade obrigatória”, reflete.

Esse cenário deve impactar não apenas empresas exportadoras, mas toda a cadeia de fornecimento, já que grandes multinacionais tendem a exigir dos seus fornecedores padrões semelhantes aos adotados em seus mercados de origem.

Credibilidade construída ao longo de 35 anos

Ao falar sobre a trajetória da Azeplast, Djalma atribui a consolidação da empresa a um conjunto de fatores que vão além da tecnologia.

Consistência operacional, verticalização dos processos, especialização em filmes flexíveis pós-consumo e relacionamento próximo com os clientes aparecem como pilares dessa construção. Segundo ele, a confiança do mercado é resultado de um trabalho contínuo.

“A credibilidade de uma indústria de transformação se constrói lote a lote, remessa a remessa”, coloca o também presidente, que ainda ressalta que momentos desafiadores fizeram parte dessa história e contribuíram para fortalecer a cultura da empresa. “Empresa que não se adapta morre.”

Para Djalma, a capacidade de enfrentar mudanças, mantendo a operação e o compromisso com os clientes, faz parte da credibilidade construída ao longo das últimas décadas.

O futuro pertence a quem agir agora

Ao projetar os próximos anos, Djalma acredita que a competitividade estará diretamente ligada à capacidade das empresas de incorporar a economia circular aos seus modelos de negócio.

Isso permite atender à legislação e ainda representa uma oportunidade de diferenciação, fidelização de clientes e acesso a novos mercados. “Economia circular não é obrigação fiscal. É nova fronteira de valor”, destaca.

Na avaliação do executivo, empresas que demorarem para investir em estrutura, tecnologia e rastreabilidade poderão enfrentar custos maiores, dificuldades de abastecimento e perda de competitividade.

Uma trajetória construída antes da tendência

Ao final da conversa, Djalma resume em poucas palavras aquilo que considera o principal aprendizado de sua trajetória na indústria: negócios sustentáveis são aqueles capazes de atravessar décadas, adaptando-se às mudanças sem perder a consistência.

Depois de mais de 35 anos acompanhando a evolução do setor, ele acredita que a economia circular deixou de ser uma possibilidade para se tornar um caminho inevitável para a indústria do plástico.

“A Azeplast fez essa aposta há 35 anos, quando reciclar plástico não era tendência, era teimosia. Hoje, a teimosia virou estratégia”, conclui.